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Doença

eu queria todas as janelas fechadas. tanto as de casa quanto as da alma. tive os olhos fechados até a sua chegada, assim, lacônico.

não movi um músculo.

sim, é por sua causa. e também por causa de outros como você.

você disse “é este um quarto de morcego? escuro feito uma caverna. você está pálido como se estivesse há um ano numa caverna”.

não respondi, mas pensei “na tua caverna, meu caro. passei um ano neste colo cavernoso”.

“vamos deixar a luz entrar” continuou, mesmo com os meus pedidos - silenciosos - por clemência. não ofusque os meus olhos

de novo,

feito aquela primeira vez, em que por mais de um mês não via outra coisa que não fosse você

em todos os lugares.

sem acordo. fui obrigado a ver a cor do teu rosto claro de novo, mas não sem antes me aterrorizar com a tua divindade negativa: ao abrir as cortinas assim, como quem rasga as roupas de um amante, aquele sol, aquele tempo, foi como se toda a sua silhueta se transformasse num desenho inteiramente negro, feito um diabo assustando um bom cristão com seus braços abertos. a capa assustadora - as cortinas - tremeluzindo e sua imagem negra crescendo diante de mim.

isso não mudou: você ainda me dá medo como antes.

medo e todo o resto de sensações

boas ou ruins.

“bem melhor. luz para o seu dia”, disse e se sentou na cama. o peso no colchão fez com que eu me inclinasse em sua direção, como se eu não fosse inclinado o bastante para a sua pessoa, mais esta ajuda para eu cair todinho. já estou caído, meu bem. você me deixou doente - e caído - de tanto bem que fez.

fez bem, tão bem, que enjoou e foi embora. por que voltou como se nada tivesse acontecido? assim todo faceiro com uma bandejinha de café da manhã.

“trouxe chá”, sinalizou. adoro chá, ele bem sabe. cada um para uma dor do corpo. chá para a cabeça, chá para os ouvidos. um conhecido tomava um chá que era para os rins: chá de quebra-pedra. aqui não há pedras para quebrar - meu caminho é sempre aberto para ele. mas e chá para quebrar gelo, será que existe?

olho com aquela cara de que não vai adiantar, meu apetite está do avesso mesmo. tão avesso quanto meu pijama. avesso como esta situação. não tenho vontade sequer para perguntar “o que faz aqui?”

feito quem notasse a tremura dos meus olhos, ele debruça sobre os cobertores a fim de cobrir melhor o meu peito e fita meus olhos a queima-roupa: agora, nesta luz da tarde, de diabo passa para deus, de tão clarividente esta feição. não adianta, a reza é antes de dormir, que vem sendo a única boa hora. só mesmo a reza. mas entre acordar e dormir só mesmo este quarto de caverna, que agora é aquela caverna em que colocam estátuas de santos para adoração - o rosto do santo sob a luz dourada da tarde.

você me dá uma emoção assim de perto. tão mais perto, lentamente mais perto.

eu sinto a emoção do primeiro beijo. eu fecho os olhos diante da emoção do beijo.

subitamente mergulho na escuridão cavernosa de antes da sua visita.

sem chá. sem luz da janela.

ainda ninguém encontrou um chá de quebra-gelo

para amenizar a doença que eu tenho.

Fogos

no meio do meu escuro, de súbito um brilho
que mesmo aguardando, eu fico surpreso:
tua aparição é acompanhada de artífícios ilusionistas -
momento que insiste em causar impressão.

magicamente, sobe uma fumaça branca do cigarro da tua boca que é feito um gelo seco derretendo em minhas mãos.
me sobre um gelo no caminho da espinha que adentra todas as vértebra da minha coluna.

eu tento te manter por perto, mas te prender é igual a capturar esta fumaça
numa rede de caçar borboletas:

algo que não pára nos meus dentes, nem nos dedos
nem na língua -

na mesma hora que chega, vai embora,
e fica este cheiro impregnado pelo resto do dia.

eu tenho em mim o teu cheiro impregnado
que faz morada pelo resto do dia
 
até a hora da chegada
à noite
já escuro
com o cigarro aceso.

aquele minúsculo ponto vermelho luminoso no escuro -
aceso.

a tua chegada me acende -

me traça um risco
vermelho feito a linha do termômetro
crescente na hora de calor.

a tua chegada me acente
um fogo

luminoso como a ponta do cigarro
que risca o quarto escuro
na minha direção.

me acende ainda mais quando atira o cigarro de lado, que no escuro mais parece um fogo de artifício rumo ao chão:
quando cai estouram fagulhas por todos os lados, como uma árvore de luz que cresce em direção ao céu
e estoura uma copa repleta de frutos luminosos.

o teu beijo me acende
um fogo

assim bem luminoso
feito fogos
de artifício
bem no céu da minha boca.

o teu agarro me estoura
um estrondo

assim de bate-estaca
que embala meus ritmos
e me acende o peito
num bombear
ensurdecedor.

eu te vejo claro
no escuro.

vem,
que eu entro no ritmo do teu corpo
para me esfumaçar conforme eu soo
nas tuas mãos cheias de nervos.

vem,
que eu me enervo em sobressalto
sem a tua respiração
fumegando em meu pescoço.

vem,

que quero meu instante máximo
enroscado no teu corpo:
um ponto colorido
luminoso no escuro.
vem,
que eu estouro radiante.

me acendo em tua boca,

no assopro do teu fumo,

no esvair da tua fumaça

e me apago no final.

.

vem.

traz o fogo.
e depois me traga o fogo.

Transparência

gosto de dizer que as pessoas transparentes têm o rosto feito de vidro.
assim, por mais máscaras que vistam, sempre é possível encontrar o que há por dentro.

mas sinto na pele os efeitos desta comparação - os materiais que compôem o mundo possuem uma imensa contradição:
quando mais rígidos, mas facil se quebram quando caem no chão.

isso coloca em prova a hora que eu protejo o meu coração -
que às vezes parece de pedra, de tão macia a tua mão.

mas tal esforço é em vão: coisas de vidro são feitas para manterem repouso,
e não serem jogadas para lados diversos
sob o risco de se quebrarem na queda brusca.

ainda tenho nos olhos aquela luz da tua transparência, que mais parece vinda do vidro das janelas da tua alma - fresta clara na escuridão das minhas núvens.

mas eu sei prever as tuas tempestades vendo o canto dos teus olhos. as mínimas linhas de expressão do teu desencanto, feito uma rachadura num vidro quente ao passar por água fria.

o canto dos teus olhos formou uma rachadura de vidro bem fina, que mais parecia com a linha do raio de trovão que rasga o céu em dia de chuva.

eu não posso com a tua chuva.
não sou dado a tempestades.

eu sou feito um pó de açúcar entre os teus dentes, viajando ao redor da língua - milhares de cristais quebrados.
uma areia de caquinhos espalhados dos teus vidros.

cristal de areia.

eu sou um cristal de açúcar.

não destempere o meu doce, que eu derreto em meio as chuvas -
copo d’água
que transborda
no teu choro
compulsivo -

perco a rima
há muito tempo.

toma a água do copo - chovida de tempestade - com colher de açúcar pra se acalamar.
não fique bravo, que eu já te dou colher de chá.

me derreto com teu calor, que é pra depois recompensar:
carapaça, caramelo,
transparente -

eu sou uma estátua feita de doce.

ainda te vejo através dos teus vidros,

muito antes de o tempo se fechar.

Cruz

engana-se quem imagina que o desencontro é uma história de “não se ver”.
o meu maior desencontro começou justamente quando eu cruzei o teu caminho.

é neste cruzar de caminhos que eu guardo fé.

as rotas dos teus passos traçadas nos meus mapas formam uma rede cheia de encruzilhadas,
como aguardar em vias engarrafadas o sinal abrir para presseguir viagem.
mas o sinal está fechado.

eu traço uma série de desencontros meticulosamente planejados. eu tenho que saber por onde você vai passar para me desencontrar urgentemente,

como alguém que planeja chegar atrasado ao próprio enterro

e fica mais tempo rezando em casa na frente de uma cruz.

(eu tenho fé no que peço)

justamente por isso eu me recordo:
te olhar asism, distraído, de braços abertos, é como ver uma cruz de pé na terra

que acalanta um povo desconsolado.

eu sou fiel ao mandamento de amar ao próximo mais do que a mim mesmo. desde que o próximo tenha a tua feição benevolente. para isso preciso estar perto, mesmo que meio de longe, me encontrando sóbrio para te desencontrar.

tocar a borda das vestes para receber o milagre da cura.

eu carrego este peso ao te acompanhar, na emergência de quem tem o corpo mutilado -
cruzar o teu caminho é traçar uma ferida sangrenta, aberta tal como a cruz vermelha dos carros de ambulância.

é preciso abrir caminho no meio dessas ruas obstruídas, com o estrondo da sirene portadora de mensagem de pânico -

esta rua morta é uma gangrena nas veias da cidade,

e a cruz vermelha dos feridos não é igual à cruz da igreja dos que têm fé.

doença mais forte é a que afeta corpo e espírito: você grita comigo como um padre que exorcisa os demônios.

mas não me crucifique por conta destes pecados:

os males do coração devem ser tratados com rapidez.

a minha religião é amar os homens.

você está no centro da minha cruz.

Seda

as aranhas são seres com hábitos bastante curiosos:

não bastasse serem engenhosas a ponto de tecer suas próprias teias (e caminhar no alto mesmo sem poder voar), elas ainda são mestras em cuidar de coisas que levam tempo.

terminada a delicada tapeçaria, elas esperam até que uma mosca desavisada pouse as inocentes patas nos fios grudentos amarrados.

agora a presa está presa.
mas ainda deve aguardar
até que a aranha apareça, sádica, para enrolá-la toda em mais teia.

a pobre mosca fica coberta de seda

instantes antes de virar banquete.

talvez coincidentemente, tenho um medo mais do que primitivo por aranhas. aquelas oito patas ágeis que sobem em qualquer lugar me dão arrepios agudos.

uma das espécies mais perigosas deste monstro é chamada de viúva negra.

misteriosamente, a viúva negra tem estampada no ventre uma mancha vermelha no formato de uma ampulheta. dois triângulos, um apontando para o outro, justo na região do corpo onde ela produz a seda das teias.

é como se a aranha mostrasse maliciosamente que é capaz de gerar no ventre a hora de nos prender,
justamente como ela faz com as coisas antigas e há tempos intocadas.
feito os móveis daquele nosso quarto, cobertos de teia.
como o tempo tricotado ao redor da existência,
e todo o pó numa crosta de um cinza,
típico daquelas coisas que
já estão velhas
demais

eu saio de perto sem apagar a luz, já que você mantém o quarto ocupado (sem mim).

fica na porta fechada, olhando daqui de fora, o contorno do retângulo iluminado no meu corredor escuro. é feito o fio mais do que fino tecido por uma aranha conforme o nosso tempo foi esgotado — toda a areia da ampulheta jogada embora –

e só me sobrou esta porta fechada,
tecida enquadrada,
no formato do caminho que me levava até você.

eu ainda me penduro neste fio de memória que tenho de ti, de quando subitamente me acendia um sorriso bem mais forte do que a luz dessa (velha) lâmpada,

eu era como a mariposa girando ao redor do lustre,

de tão ilustres que eram os meus dias

(mundo que gira em torno do sol)

acho que vivi no estranho móbile das linhas deste tempo antigo
sem ligar de correr para longe da teia
que conduziria ao nosso fim.

(é tão bom deitar na tua rede
para participar do teu balanço
e me acomodar no conforto
do teu luxo
sem perceber que é justamente nesta
hora que eu acabo coberto
pelo teu manto de seda
vermelha
como a ampulheta do ventre
da viúva negra)

nosso quarto ficou todo empoeirado

como se toda a areia do tempo tivesse se espalhado pelo lugar.

(eu tenho aracnofobia).

Hematoma

os garotos têm uma estranha forma de se divertir
que quase sempre termina com manchas no corpo:
o prazer que os garotos procuram é roxo feito uma marca de pancada.

eu, que não fujo à regra, me machuco de tanto prazer ao notar que a tua vinda é próxima. o aguardo dos teus passos martela os meus ouvidos enquanto cerro os punhos com um aperto na garganta - aperto tão forte quanto o de te cumprimentar com um aperto de mãos.

é o prazer de comprar briga, típico dos meninos. competir sempre: quem chega primeiro, quem fica por cima,

quem é o melhor. 

fica na minha mão só uma impressão tirada no aperto dos teus dedos, que me dá ganas de lutar sozinho pela direção dos teus olhos. eu me debato feito um louco preso em cela solitária para ter as marcas do teu prazer em meu corpo,

só pra te mostrar que eu também sei ser menino,

e também brigo para ver quem chega na frente.

solto a gravata para respirar melhor debaixo do esmagamento da tua atmosfera - antes que fique roxo de falta de ar. mas fico roxo mesmo é com o corte das tuas idéias agudas - cabelos espetados: idéias pontudas feito uma coroa de espinhos.

os garotos que fogem da linha são os que carregam a pesada cruz.

eu faço parte desta irmandade de desviados.

eu compro a tua briga para me manter no topo.

saio de perto roxo de um prazer dolorido que a tua presença me causa. eu me embrenho nesta luta com o aperto de que o tempo se mova a tempo que eu não fique pra trás.

o laço forte do aperto do peito que só se alivia frente ao aperto do teu abraço - um laço dentro dos teus braços - o amarro dos teus dedos.

eu não tenho saída senão mirar a minha boca cheia de dentes em tua direção - e deixar marca roxa bem no teu pescoço. aproveitar o aperto das mãos para me concentrar no aperto dos teus lábios - lutar uma luta que não trégua,

e que não finda.

me aperta firme que é para controlar o caminho, com a mesma força que eu me agarro aos teus braços com medo que parta. eu luto pela sobrevivência,

tanto que já tenho os olhos roxos - é o aperto da briga
e o aperto da insônia -

é o aperto dos meus dentes
na ponta dos meus dedos -
nas unhas roídas de aflição.

os meninos têm uma forma de prazer dolorida -

dessas que deixam uma marca roxa.

Roda

de todo o léxico do meu vocabulário, há uma palavra que eu não ouso proninciar.

é uma palavra que tem como significado o extremo oposto da “sorte”.

por superstição, esta e mais algumas outras devem ser ditas de trás para frente.

assim, a falta de sorte é “raza”.

ter uma má sorte é ter “raza”.
ser uma pessoa rasa é falta de sorte.

rasa é a cova que eu cavo para me esconder de você, tão profunda quanto uma poça de água. não tive a sorte de te despertar incêndio, mas só causar uma faísca. feito uma pedra que faz atrito em outra com força e quase não clareia, mas já é um desejo aceso.

quem sabe seja melhor esta pouca luz da faísca. assim mal vejo o futuro, e fico vivendo ao sabor da novidade. melhor mesmo é quando ficamos quase no escuro e mal posso te ver, de modo a poder te provar com todos os outros sentidos.

o destino é uma vela que se espera queimar até o final, para desmanchar toda a cera que é posta de pé.

então vou esperar queimar a cera da vela intuindo que sejam barras de uma grade. é a esperança que trago, tênue como uma faísca — a mesma que espero ter despertado em você –, de que a ação do destino derreta essas barras para abrir meu caminho.

assim, eu me atiro à própria sorte para me embrenhar por uma trilha que te siga. andar à tua procura é marchar descalço em um chão de pedras brutas. elas vão colidir entre si e faiscar conforme passo. vai ser como um chão de estrelas formando as constelações do meu futuro.

futuro profundo, sem “raza”.

eu atiro essas constelações abrindo os braços, como quem gira a Roda da Fortuna para saber do porvir. é como se eu espalhasse luzes sobre a rua negra para formar um emaranhado luminoso girando em formato de redemoinho. a via láctea é inteira uma roda da fortuna variando o meu destino.

estamos distantes como o idoso e o bebê do baralho de tarô, mas o meu destino gira rápido na Roda da Fortuna,

feito uma roda de automóvel, que se pára buscamente, derrapa e muda a direção do veículo.

o meu destino é ir pra longe, muito longe, rápido e sobre rodas. faiscar como as velas de um motor.

eu vou fazer o possível. cavar fundo no teu presente, sem falar pelo contrário

(o teu nome, eu pronuncio com todas as letras):

daqui pra frente, só sorte na vida.

Caracol

o purgatório é um redemoinho.

 –

entro no meu quarto denso de atmosfera e tranco a porta às minhas costas. fecho com tanto afinco que falta quebrar a chave. fosse possível girar pela terceira vez, eu a girava, porque eu me atenho às formas circulares. tudo para que eu possa tratar em paz dos caracóis que me embolam as idéias. eu coleciono conchas daquelas em forma de redemoinho, que só os caracóis são capazes de gerar.

caracóis são animais divinos.

podem não parecer à primeira vista por causa da sua textura viscosa, o corpo malemolente, os olhos na ponta das antenas. eles deixam rastros por onde passam.

eu tive paixão por esses seres quando fizeram com que eu conhecesse o mar. repare: não conheci o mar pessoalmente, mas por causa das conchas dos caracóis, é como se eu conhecesse. quando se leva uma delas às orelhas, é tal qual milhares de ondas quebrando em branca areia. há um som ressonante de mar lá dentro daquela estrutura óssea minúscula.

é como se o caracol carregasse o mar inteiro nas costas sem reclamar. deve ser por isso que aquela concha tem um formato de espiral. um redemoinho moldado em osso,

feito o redemoinho das águas num ralo, que brigam para correr rumo à única saída.

no percurso dos rios, quando há curvas muito bruscas, forma-se um redemoinho por causa velocidade da água. ela não se curva a tempo e dá voltas antes de prosseguir — voltas em torno de si.

este redemoinho também não deixa passar o que for intruso ao fluxo. fica tudo preso ao centro, como Moisés bebê em seu barco abandonado, à deriva para não ser morto.

aquele que veio das águas
foi o que teve poder sobre as águas.
poder para, com uma batida de vara, abrir o mar ao meio e atravessar com o seu povo.

sabendo desta dinâmica, me atribula meu atual estado. tanto medo, que o perfil das minhas mãos formam caracóis de tão fechadas que ficam. se eu mergulhar na tua concha, posso não me curvar a tempo quando alcançar a virada do teu colo, e passo a girar apenas em torno de mim.

por favor, não viole o meu ritmo enquanto eu procuro pelos os teus caminhos.

violar-me será como trincar rachaduras em milhões de conchas — e assim, todo aquele mar nas costas dos caracóis se desabriga e escapa pelos ares.
violar-me fará com que os céus se escureçam em uma chuva de lágrimas.

te seguir é feito um peixe dourado nadando num turbilhão de liquidificador — o céu descendo à terra em um redemoinho que me tira os pés do chão.

 –

tal como o mar, eu só conheço o teu mundo através de uma concha.

chegue um pouco mais perto,
acabe com esta distância.

este é um peso leve de se carregar.

 –

 o purgatório é um redemoinho.

Útero

às vezes, se tampo os ouvidos com força, posso ouvir, feito uma ressonância, as batidas do meu próprio coração.

estranhamente, passei a ter que tampar os ouvidos todas as noites para me refugiar dos barulhos e assim poder dormir.

mais: me viciei nesta ausência de sons, e mesmo em noites de maior silêncio, preciso voltar meus ouvidos para mim mesmo, entrar no ritmo do meu coração para adormecer em paz.

assim é meu sono, coisa comum dos que dormem sozinhos: se prender a pequenos barulhos, como companhia constante no quarto, tv ligada. repara que minha maior companhia vem de mim mesmo.

eu tenho ganas de saber como funciona o teu sono, para não ter surpresas quando dormir contigo.

preciso saber se o rádio está ligado enquanto dirige rumo ao túnel escuro do inconsciente. se é preciso música para te embalar enquanto derrapa até capotar. logo você, que parece sonoro desde o momento em que acorda. tem uma casa que não sossega, amigos que te visitam. tua casa é inteira viva para conter o teu descanso. eu quero saber como funciona:

por isso,
eu colo o ouvido nas tuas paredes como um futuro pai cola o ouvido no ventre da esposa para sentir a vida do novo filho,

eu, como um desses moços que criam gatos em casa, vou andando devagar, com a pata leve, pelos teus corredores para adentrar esta vida. até os cantos mais distantes são sonoros neste teu convívio. o teu momento de silêncio deve ser feito uma orquestra afinando os instrumentos para uma performance memorável.

o meu sono é quase uma prática ancestral:
como uma nova vida ainda em útero, eu ouço o som surdo do coração pulsante de uma mãe que gera vida.

poderei dispensar o minha forma de sono auto-referencial enquanto o teu abrigo me acolher de braços abertos,

mas precisarei pousar minha cabeça no teu peito para ter paz em nossa vida. entrar no ritmo do teu coração e ter um corpo que funcione como o teu.

sobre o teu peito, eu estou no útero do meu novo gerador. é como um batismo que me dá nova vida. eu renasço com todo esse acolhimento.

assim, posso parar de tentar chamar atenção com a minha tensão minimalista, feito o som de uma goteira. tão pequeno, mas insuportável em sua constância.

com tua ajuda,
eu cresço até transbordar

e poder inundar o mundo.

(eu sou dado à luz –

venha se batizar nas minhas novas águas).

Árvore

neste ano, o meu outono chegou alguns meses mais cedo.

eu fui ganhando a cor vermelha conforme o teu humor mais seco ventejava pelo jardim da nossa casa. até que mesmo despido de todas as folhas, rasgadas tão facilmente pela tua indecência, não fosse possível que me admirasse como antes,

e pelo contrário, você me lançou um olhar tão sólido, que parecia ser possível pegar com a mão a linha feita na trajetória. mais parecia um olhar reto talhado em madeira nobre,

uma pancada de vara seca.

fez que eu me sentisse ainda mais nu do que já estava.

e pior: com o corpo marcado como se fosse seu.

tolo: eu já tenho uma daquelas marcas que são feitas a canivete. perto das costelas, no tronco.

nessa hora eu fiquei plantado, feito uma árvore, com os pés bem enfiados no chão, braços abertos em direção ao céu. feito a árvore da vida dos que estudam a cabala. levantar as mãos só se for para agradecer.

(a voz de Deus é uma trovejada de calmaria.)

os céus se abrem frente a sua gana. eu bebo cada gota dessa água turva que você chove.

um banho de água fria que só serve pra me alimentar por fora,

porque eu continuo procurando o que há de mais profundo no teu chão, como as raizes de uma árvore. quanto mais alta nos céus, mais fundas no chão.

eu sou imortal até que alguém me derrube
e me prove do contrário.

a tua prova é uma lâmina de machado,
ou uma das tuas tempestades.

ninguém sabe, mas eu amo os teus períodos de catástrofe,

e, assim como uma árvore,

há quem aprecie inclusive por causa das sombras.